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Um abecedário vive ou morre pelas palavras que escolhe, e o de Geraldo Valério escolheu bichos brasileiros. O Abecedário de Bichos Brasileiros (Martins Fontes – WMF, 2ª edição, 2016, 56 páginas) é analisado aqui pelo que a criança encontra dentro dele, pela fase da alfabetização em que funciona e pela fase em que não resolve nada.
Como avaliamos este livro
O livro não é vendido como material didático, e por isso não foi avaliado como tal, e sim pelo que um abecedário ilustrado precisa entregar. Três pontos pesaram: se o repertório de palavras é reconhecível para uma criança brasileira, se o formato sustenta a leitura compartilhada em voz alta e se as 56 páginas cobrem o alfabeto sem virar um cartaz esticado. Nada que não deu para verificar entrou: preço, descrição página a página ou um método de alfabetização que o livro não declara. A nota soma esses três pontos à coerência entre o que o livro anuncia e o que entrega.
Sobre a nota: ela é do time editorial e mede quanto o livro entrega ao leitor para quem ele foi feito, pesando clareza, se cumpre o que promete, a qualidade da edição e o quanto se ganha pelo tempo e pelo dinheiro investidos. Não é média de avaliação de loja nem prêmio de valor literário, e não muda por comissão de afiliado.
O que você vai aprender
O alfabeto ancorado em palavras concretas: a criança percorre as letras associando cada uma a um bicho brasileiro, o que dá matéria-prima para o trabalho com os sons iniciais, o reconhecimento da letra maiúscula e a ampliação do vocabulário. Nas 56 páginas há espaço para o adulto transformar cada dupla letra-bicho em conversa (que animal é esse, onde vive, que som tem o nome dele), justamente o tipo de exercício oral que sustenta a alfabetização.
Para quem é
Pais e professores de crianças na pré-alfabetização ou no começo do processo, aquelas que já sabem que letras existem, reconhecem algumas e precisam de repertório de palavras para amarrar letra e som. Rende muito em leitura compartilhada, com o adulto apontando e a criança nomeando. E agrada a famílias que querem um abecedário com fauna brasileira, e não o repertório importado de sempre.
Para quem NÃO é
Método de alfabetização com progressão, exercícios e avaliação não é o que ele oferece: é abecedário ilustrado, não apostila fônica nem caderno de atividades. A criança que já lê frases e quer história com começo, meio e fim folheia rápido e pede outro livro. Deixar o livro sozinho com a criança, esperando que a alfabetização aconteça por osmose, também não funciona, porque sem adulto lendo e conversando o material rende pouco. E caligrafia e traçado de letra ficam de fora.
Nossa análise
O acerto está na escolha do repertório. Ancorar as letras na fauna brasileira tem efeito prático: a criança não precisa aprender o bicho antes de aprender a letra, porque muitos desses animais ela já viu em livro, em desenho ou na conversa de casa. Abecedários com repertório distante fazem a criança gastar atenção decorando um substantivo estranho em vez de perceber a letra que abre a palavra. Aqui o esforço vai para o lugar certo. O formato é o segundo mérito. Geraldo Valério é autor e ilustrador, e este é um livro de imagem tanto quanto de texto, em que a leitura acontece no gesto de apontar, nomear e repetir. Com 56 páginas, é curto o bastante para ser lido numa sessão e longo o bastante para não parecer pôster encadernado, e dá para voltar a ele muitas vezes, que é exatamente como uma criança lê nessa fase. A 2ª edição, de 2016, mantém o livro em circulação numa editora de catálogo consolidado, detalhe que importa num objeto que vai sofrer manuseio pesado. A limitação é estrutural e precisa ser conhecida antes da compra: abecedário é ponto de partida, não trilha completa. Entrega o inventário de letras e um vocabulário de apoio, mas não sílabas, progressão de dificuldade ou frases para a criança decodificar sozinha. A nota 8,5 desconta essa cobertura limitada, e não a execução, que é boa no que se propõe.
Veredito
Nós compraríamos, desde que haja um adulto disposto a ler junto. Para a criança na fase de reconhecer letras e ampliar vocabulário, com alguém sentado ao lado lendo em voz alta, é uma compra sólida: repertório nacional bem escolhido, formato que convida à releitura e um autor-ilustrador que faz a imagem carregar sentido. Se a ideia é substituir método de alfabetização, exercício ou caderno de atividades, não é este o livro. Ele é o apoio afetivo e visual do processo, não o processo.
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